A entrevista de hoje do projeto P.LE.NA, que visa a valorização da literatura nacional, foi com o ilustre e talentoso Sergio Viula! Conhecer o trabalho dele é ir de encontro à uma literatura de profundidade. Apreciem e aproveitem para conhecer um pouco mais do autor e suas obras.
1- Fale-nos um pouco de você. Quem você é? O que te move, inspira e diverte?
Meu nome é Sergio Viula, sou blogueiro, escritor e professor. O que me move é o fascínio pela vida e o desejo de ver a sociedade brasileira mais livre, amadurecida e igualitária. Muitas pessoas me inspiram, algumas vivas, outras mortas. Propositadamente, cito dois lesgiladores que foram pioneiros no sentido de serem os primeiros gays assumidos e defensores dos direitos LGBT em suas esferas de ação. Um é brasileiro e contemporâneo nosso, o outro era a americano e teve a vida interrompida por um colega de ofício dominado por ódio homofóbico. Refiro-me a Jean Wyllys e Harvey Milk, respectivamente. Posso incluir aqui nomes a perder de vista, tanto de gays (Toni Reis, Luiz Mott, Claudio Nascimento, Carlos Tufvesson) como de lésbicas (Lea Carvalho e Malu Santos), de pessoas transgênero (Indianara Rodrigues e João Nery) e de pessoas queer (Pri Bertucci e Magô Tohon). Se eu fosse dar exemplos a partir de cada letrinha da sigla LGBTQIA (lésbica, gay, bissexual, transgênero, queer, intersexual e assexual), seriam algumas dezenas de nomes de pessoas que admiro ou com quem já estabeleci parcerias para a expansão da consciência no que tange à sexodiversidade e às identidades e performances de gênero. Sobre o que me diverte, posso dizer que uma descontraída conversa com amigos, um bom livro ou uma simples caminhada sem destino certo num dia de folga são sempre bem-vindos.
2- Qual sua formação?
Sou formado em teologia pelo Seminário Teológico Betel (Rio de Janeiro), em filosofia pela UERJ, onde faço um mestrado em linguística no momento.
3- Como se da à relação entre você e a literatura?
Sou apaixonado por livros, tanto lendo como escrevendo. Claro que leio muito mais do que escrevo, tanto por lazer como para fins de pesquisa. Em termos do que vem sendo chamado de literatura LGBT, o último livro que li foi "Este livro é gay... e hétero, e trans, e bi.", escrito por James Dawson. Isso foi na segunda semana de dezembro de 2015. Este ano, não computei o número ou os títulos de livros que li dentro dessa temática, mas ano passado (2014), fiz questão de fazer esse registro para ter uma ideia da quantidade de obras que eu conseguiria ler. Só contei os que se inscrevem como literatura LGBT. Foram 35 livros. Tomei a liberdade de colocar a lista das obras lidas naquele ano ao final dessa entrevista. Vale lembrar que novos títulos e autores surgem o tempo todo - o que é extremamente estimulante, porque mostra a vitalidade desse segmento.
4- Quais são seus livros? Fale um pouco sobre eles.
Meu primeiro livro foi o "Em Busca de Mim Mesmo" que provocou comentários muito positivos, tendo sido citado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) em documento oficial de 2013, em resposta às investidas de Marco Feliciano e sua turma contra a resolução do CFP que baniu, desde 1999, as falsamente chamadas terapias de reversão sexual, ou de reorientação sexual, ou de cura gay, ou seja lá que nome os fanáticos e outros preconceituosos venham a dar a esse embuste. O livro impresso se esgotou, mas a versão e-book continua disponível no Amazon.com.
Depois, escrevi "Crônicas de um Casamento Duplamente Gay", um livro também autobiográfico, só que em formato de crônicas, para falar sobre casamento homoafetivo. Curiosamente, ao longo das historietas, o livro dava até dicas sobre como fazer o requerimento de habilitação para o casamento civil, enquanto contava histórias pitorescas sobre o meu dia-a-dia com meu marido naquela época. Duplamente gay é uma brincadeira com o fato de ser sobre o casamento de dois homens e com o significado da palavra gay quando ela foi adotada pelos homossexuais para referirem-se a si mesmos: feliz ou alegre.
Escrevi vários contos. As editoras que os publicaram foram a Escândalo, a Orgástica e a Metanoia. Esta última publicou meu conto "Ocaso" como parte de uma coletânea chamada "Um Rio de Cores", que celebrava os 450 anos da cidade do Rio de Janeiro no ano de 2015. Esse trabalho contou com uma parceria com a Secretaria de Cultura do Município do Rio de Janeiro. Um concurso foi realizado e dois livros foram publicados, sendo um de contos e outro de poesia, ambos escritos por vários contistas e poetas.
Recentemente, também lancei "O homem que amava mendigos", mas esse foi apenas em formato e-book. Trata-se de um romance que apresenta a surpreendente relação entre um empresário extremamente bem-sucedido e um morador de rua. Essa relação, porém, só encontrará possibilidades de existência quando um incidente inesperado colocar os dois frente a frente. Apesar de serem de mundos tão diferentes, Eduardo e Leo têm mais em comum do que imaginam - um passado que vai desafiar sua capacidade de amar e de perdoar, além de outras surpresas incríveis. Acessível no Amazon.
5- Como se deu sua inserção nesse universo literário? Quais desafios encontrou para publicação de seus livros e como os superou?
O desafio do primeiro livro (Em busca de mim mesmo) foi produzir um relato autobiográfico que dialogasse com temas como homofobia, “cura gay”, reforço religioso dos preconceitos, contando casos reais sobre mim mesmo e sobre outras pessoas que passaram pelo movimento sem expô-las, mas sem ficar só na contação de histórias. Fiquei sete anos escrevendo e amadurecendo as ideias. Nenhuma editora topou fazer a publicação. Acho que algumas foram covardes mesmo. Outras podem nem ter lido o material, simplesmente por não estarem interessadas em escritores desconhecidos. Além disso, os embates sobre “cura gay” ainda não estavam em alta na Câmara dos Deputados. Decidi que eu mesmo encararia o desafio da publicação. Contratei uma editora e segui com o projeto. Os editores se empolgaram com o texto, e eu percebi que isso poderia ser um sinal do que aconteceria quando o livro chegasse finalmente aos leitores. Dito e feito. Muita gente me enviou comentários belíssimos. Algumas pessoas compartilharam suas histórias comigo. Mas, o que mais me surpreendeu foi que muitos heterossexuais se interessaram e se encantaram com o livro. Soube de esposa que lia com o marido na cama para depois trocarem ideias sobre o texto. Recebi contato de muita gente que me disse ter decidido sair do armário após a leitura. Foi emocionante, mas decidi que o livro impresso já havia cumprido seu papel depois de esgotado, e, para não deixar as pessoas que ainda não o haviam lido sem opção, disponibilizei o conteúdo em formato e-book pelo Amazon. Também não posso deixar de reconhecer a parceria da Livraria Cultura na venda da edição impressa. Ela foi uma peça-chave.
6- Que elementos você considera importante na construção de um personagem?
No caso de “Em busca de mim mesmo”, essa construção foi diferente, porque o autor e o personagem principal eram a mesma pessoa (risos), mas em “O homem que amava mendigos”, eu pensei Eduardo como o homem rico que tinha uma curiosidade recorrente sobre o modo como vivem os que não têm onde morar e nem bens que garantam qualquer segurança pessoal. Mesmo tendo tudo na vida, ele era muito reprimido em seu desejo. Muito diferente de Leonardo que vivia nas ruas do Rio de Janeiro, mas era absolutamente resolvido em sua sexualidade. Leonardo perdeu o pouco que tinha por causa da homofobia de seus pais. Os dois são pessoas de mundos extremamente diferentes, com modos muito distintos de lidar com a sexualidade, mas com uma coisa em comum: sua homoafetividade. Um acidente vai aproximá-los e eles vão descobrir que têm muito mais em comum do que poderiam supor... Mas isso só lendo para saber (risos). Considero importante dizer que o livro contempla a diversidade sexual para além dos relacionamentos entre homens. Na verdade, existem diferentes núcleos dentro da história que vão se conectando ao longo de seu desenvolvimento.
7- Quais são os livros e autores que inspiram sua vida? Recomenda-me algum.